Ecumenismo

por Pablo Neves, subdiácono

A Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia, firme em sua legitimidade apostólica, histórica, doutrinal e litúrgica, nunca teve medo de entrar no diálogo ecumênico. Ela sofreu perseguições terríveis, especialmente do Império Bizantino por ser acusada de “monofisita” e posteriormente do Império Otomano, que culminou num terrível massacre no começo do século XX. Portanto, a Igreja conhece e reconhece a profundo valor da paz, especialmente da paz entre os irmãos.

OIKOUMENEEste é a primeira expectativa criada pela Igreja ao tratar de ecumenismo, ou seja, a paz. Como afirmou o patriarca Mor Inácio Zakka I em seu discurso na  Universidade de Humboldt: “A divisão da igreja cristã é um grande erro, uma blasfêmia contra o Espírito Santo e uma ignorância quanto à promessa de Cristo ao prometer que “as portas do inferno não prevalecerão contra ela “ (Mt 16:18). Sua Santidade foi enfático ao afirmar que a divisão entre os cristãos nunca agradou a Deus em nada, e só rendeu sofrimento e derramamento de sangue através da história. Ele parabenizou a coragem e o empenho daqueles que antes de tudo buscavam e promoviam a paz.

Nosso Senhor no Evangelho de João diz: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize”. E é por falar em paz entre os cristãos que podemos também recordar o versículo anterior ao acima citado, onde Nosso Senhor diz: “Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito”. Ainda citando o discurso de Sua Santidade o Patriarca Mor Inácio Zakka, “A unidade do cristianismo só pode acontecer e em torno de Cristo, que é a cabeça da Igreja”. Assim, o primeiro objetivo do ecumenismo para nós é a promoção da paz. É a paz que Cristo nos dá, iluminados pelo Espirito Santo, que nos conduzirá a olharmos novamente para Cristo, juntos, podendo sanar tudo aquilo que é menor, pois nenhuma de nossas diferenças são sequer de longe mais importante que nossa fé comum em Jesus Cristo como nosso Senhor e Salvador.

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Patriarca João (greco-ortodoxo) e Patriarca Inácio Efrém II

Se a paz é o nosso primeiro alvo através do diálogo ecumênico, como forma de nos deixarmos conduzir pelo Espírito Santo, a unidade entre as Igrejas cristãs é sem dúvida nosso grande objetivo. E falar de unidade não é falar de uniformidade, muito menos de relativismo doutrinal, de supressão de tradições ou de um esquecimento generalizado das dolorosas querelas que ocorreram na história da Igreja. É antes de tudo nos reconhecermos como irmãos, como parte de um só cristianismo e que em comunhão somos a imagem perfeita dos Apóstolos reunidos no dia de Pentecostes, recebendo todos o mesmo Espírito para anunciar o Evangelho em diversas línguas, culturas e tradições.

Por isso a Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia nunca teve medo do ecumenismo, pois crê que de forma consciente, o movimento é obra do Espírito Santo. Sendo assim, além de estar profundamente comprometida com organismos ecumênicos, como o Conselho Mundial de Igrejas (CMI) e o Conselho de Igrejas do Oriente Médio, a Igreja faz questão de estar e acolher ecumenicamente irmãos de outras Igrejas cristãs, recebendo-os não como hóspedes estranhos, mas como irmãos que, por algum motivo, estiveram fora de casa por algum tempo.

logo_Conic_novaNo Brasil, a Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia é membro do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) além de organismos regionais e estaduias de promoção do ecumenismo, promovendo e participando ativamente de ações como a Semana Nacional de Oração pela Unidade dos Cristãos.

COM AS IGREJAS GRECO-ORTODOXAS (CALCEDONIANAS)

Em todo o mundo a Igreja busca aproximar-se e mantem suas portas abertas. Com as Igrejas greco-ortodoxas de tradição bizantina (Constantinopla, Jerusalém, Rússia etc) as relações são evidentemente mais estreitas, pois a proximidades de espiritualidade, doutrinas e tradições é sem dúvida muito maior do que entre qualquer outra confissão cristã. Em nossa perspectiva, o diálogo com as Igrejas Greco-Ortodoxas é sem dúvida o mais frutífero e com maiores chances de realidades concretas.

Como afirmou o bispo Kallistos Ware em seu livro A Igreja Ortodoxa (1993), tornou-se claro que a questão básica que levou historicamente a divisão entre as doutrinas com relação à pessoa de Cristo, não constava de fato num desacordo verdadeiro de fé. A divergência encontra-se apenas no nível de fraseologia. Os delegados concluíram: “Nós reconhecemos uns nos outros a fé ortodoxa da Igreja […] Na essência do dogma cristológico nos encontramos em pleno acordo”.

COM A IGREJA CATÓLICA ROMANA

joão paulo II e inácio zakka i
Para João Paulo II e Mor Inácio Zakka I Iwas

As relações ecumênicas com a Igreja Católica Romana foram particularmente frutíferas nos últimos 50 anos, especialmente após a criação da fundação ecumênica Pro Oriente pelo então cardeal de Viena Franz König.

As consultas Pro Oriente sempre centraram-se especialmente quanto às questões cristológicas envolvendo os dois grupos de Igrejas. Desse empenho resultou os acordos bilaterais e as declarações cristológicas comuns entre as Igrejas Ortodoxas Orientais (não-calcedonianas) e a Igreja Católica Romana, colocando um ponto final em qualquer dúvida ou discussão referente à equivalência doutrinal cristológica de ambas Igrejas e consequente acusação de qualquer tipo de heresia relacionada a doutrina cristológica.